18 de março de 2012

Dia de Visita - "Maniqueísmo" por Cinthia Quartarolo


Maniqueísmo. Aprendi essa palavra difícil quando ainda estava na 5ª série. “Maniqueísmo é dividir o mundo em dois grupos: o dos mocinhos e o dos vilões”. A definição completa vai muito além disso, mas no auge dos meus 11 anos a professora bem sabia que isso era o máximo que eu iria absorver. Hoje eu sei que o maniqueísmo é uma filosofia religiosa sincrética e dualística fundada e propagada por Maniqueu que divide o mundo simplesmente entre Bem, ou Deus, e Mal, ou o Diabo – o que é basicamente a mesma coisa. (Mentira, na verdade eu não sabia disso até 7 segundos atrás, quando procurei o termo na Wikipedia).

O importante aqui é que quando tive contato com essa palavra pela primeira vez, ela me foi apresentada como algo ruim, como uma visão simplista do mundo. Fui treinada para avaliar mal os autores e produtores que traçavam uma linha nada sutil entre suas personagens.
“Deste lado só os bonzinhos... vocês, escórias, podem ir pra lá... e que comece a estória”.

Só que hoje as obras de ficção não são mais assim. Aqueles dizeres que aparecem nos créditos da novela (“esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência”) nunca se fizeram tão necessários. Porque é bem possível mesmo que as estórias da novela se confundam com a histórias da vida real. As personagens começam no time do mal, mas se apaixonam por um mocinho e mudam de time pra agradá-lo, mas aí ele se mostra um adúltero filho da puta e tem um filho com a moça da periferia que era um docinho de côco mas resolve usar o bebê pra tirar todo o dinheiro da família do mocinho que descobre, aos 30 anos, que (ops) é adotivo... ufa... não existe mais preto no branco. No final das contas, tá todo mundo correndo de um lado por outro da quadra usando uniforme cinza.

Aí eu me pergunto: onde foi parar aquele tipo tradicional de arte? As pessoas andam exaustas em ter que se manter sempre alerta na vida real. Todo mundo, o tempo todo, prestando muita atenção nos colegas de trabalho pra não tomar uma rasteira ou desconfiando que aquela amiga de olhar angelical está tramando algo pra arruinar seu relacionamento. Chega a dar saudades de ligar a televisão e saber quem é quem só de olhar.


“Cadê aquela bruxa que até sorri, mas tem os dentes podres?”
A arte sempre imitou a vida. Mas hoje em dia, a arte quer ser a vida. Uma visão aproximada já não serve mais. E o advento dos reality shows é uma prova disso. Pra parecer o mais real possível que tal não ter roteiro? E que tal confinar um monte de pessoas e registrar tudo que eles sentirem vontade de fazer? Acho que é por isso que assisto tv cada vez menos: de conflitos da vida real, minha vida tá cheia!!





Cinthia Quartarolo
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e agora está aqui no ar. E você? Vai esperar até quando?

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