20 de agosto de 2010

Dia de Visita - Sam Brito


O texto abaixo foi escrito pela Samantha Brito (@sambrito) e é com prazer que o trazemos pra vocês. É um pouco extenso mas vale MUITO a pena ler até o final. Então por favor sente-se, pegue sua pipoca e aproveite o filme texto:

Proibiram o humor político? TSE-tse...
Acho que finalmente vou conseguir falar sobre esse tema: minha primeira vez. Colégio. 4ª série. Hora do recreio. Só estávamos eu e meus dois colegas da época, na sala de aula. Sim, o Ricardo e o Daniel. Os três estavam super nervosos - dada a importância daquele momento. Confesso que não foi lá grande coisa. Diria até que a minha atuação foi bem sem graça. Não à toa, eu e o Daniel perdemos para o Ricardo naquele concurso de piadas. Também, quem mandou fazer piadinha sobre política?!

Ok. Os anos se passaram e após a minha primeira incursão no humor, finalmente obtive o meu DRT de palhaço: o título de eleitor. A partir daquele momento eu era uma “cidadã de verdade” e poderia votar. Quer dizer. Eu teria que votar porque no Brasil o voto é obrigatório e não um ato cívico. E se não votasse, teria que justificar o meu voto. A partir daquela data eu poderia ser escalada para trabalhar nas eleições ganhando um sanduíche e um café com leite, ver pessoas que sequer sabem mexer na urna eletrônica e assinarem o próprio nome, votando em candidatos que lhes deram o emprego de panfletários – e que com certeza, lhe darão o calote também, caso não sejam eleitos. Com o meu título de eleitor eu seria realmente importante para alguém. Um alguém que me abraçaria com todo o seu amor, me beijaria na testa – por mais suja e fedida que eu estivesse. Um alguém que adentraria ao meu palacete localizado na zona pobre de qualquer área da cidade e me prometeria mundos e fundos caso fosse eleito. Pela primeira vez alguém me daria voz para falar que o córrego que corta a minha rua – que não é asfaltada, nem tem rede de esgoto – enche a cada chuva e que o posto de saúde do meu bairro só atende casos de gripe. Mas que apesar dos pesares, eu estaria disposta a colocar o seu galhardete eleitoral no alto da minha residência, bem ao lado do fio do gato de luz. Graças ao título de eleitor, a figura do político entraria na minha vida como um meteoro do Luan Santana.

Quando fiquei sabendo da proibição do humor na política pensei que fosse piada. Quer dizer, proibição não. Proibição é coisa de ditador e nós não vivemos em uma ditadura. Nós apenas importamos mais um contêiner MADE IN CHINA: um modelo bem inferior de censura. Só que nesse caso, acho que o preço pago não será tão “balato” assim. De qualquer forma não entendo o porquê do TSE ter tomado essa decisão. Se no Brasil o lugar de votação é chamado de “zona eleitoral” qual é o problema de chamarmos direta ou indiretamente um político de filho da puta?! Me admira o TSE achar que a imagem de algum político, no alto do pedestal de “ficha limpa”, será arranhada por meia dúzia de piadas. O Collor, por exemplo. O Colllor teve um papel muito importante na minha vida: ele foi o primeiro a tocar na minha poupança. E olha que foi numa época onde a pedofilia ficava restrita a vídeos entre rainhas dos baixinhos e garotos. Como satirizar uma pessoa dessas? O nobre funcionário do Brasil fez o que só Copa do Mundo consegue: levou as pessoas pintadas de verde a amarelo às ruas. Sem falar que ainda livrou o mestre Chico Anysio de uma ex-mulher como a Zélia Cardoso, a economista que adorava as economias alheias.

Por que tanta polêmica? Política não tem graça. Política tem nepotismo, lobby, corrupção, superfaturamento de obra, queima-de-arquivo, ameaça de morte, auxílio terno, auxílio combustível. Mas graça, não. Simplesmente porque na política nada é de graça. Tudo implica em troca de favores. Veja Ulisses Guimarães. Cansado de viver no mar de lama foi viver no mar de verdade. Nem todo político “rouba, mas faz”. A questão é que continuamos a permitir a lógica do “estupra, mas não mata”: se fode o Brasil e não se mata a carência do povo. É por essas e outras que acho de muito mau gosto esse lance de “satirizar não pode!” Até porque se ficarmos nesse “PODE!” e “NÃO PODE!” a política vai virar uma Zorra Total (ou já virou?). Espero entretanto, que essa limitação do humor não se estenda às piadinhas que o Lula conta para os grandes líderes de Estado. A sátira do político populista e amigão que ele faz é incrível.

Bem fizeram meus colegas de primário que décadas mais tarde desistiram do humor. Eu é que continuei no lado negro da força dando macaco pra ator de Hollywood. Parabéns TSE! Tire o humor da casa – que não é a Casa da Dinda - enquanto a ironia faz a festa...





 Samantha Britto










Pra terminar, deixo um vídeo do Jacaré Banguela que expressa bem minha opinião (Alice) sobre em quem votar nessas eleições:



A Sam também tem um blog bem bacana, confere aqui: http://www.doisprala.blogspot.com/
E se você tem um texto/vídeo/desenho que você acha legal e não sabe onde enfiar pode pôr na bunda? manda pra gente no contato@tpmsemanal.com.br , quem sabe não vira post?





E lembrem-se, meus jovens: se beber, NÃO VOTE. #DitadosDeVanusa

6 comentários inúteis:

  1. eu nasci em 1970, no auge da ditadura... não tenho nenhuma história triste para contar em relação a isso. mas, de alguma forma , fui afetada pela repressão política... vivíamos numa repressão como um todo... essa decisão do TSE é um retrocesso para uma nação q , hj, é considerada a 8a. economia do mundo.
    o voto obrigatório tb é uma aberração...
    a vingança dos humoristas é o horário político... não precisa nem de comentários... piada pronta como diz o macaco simão.
    adorei o texto.

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  2. Com certeza este foi um dos melhores textos sobre crítica politica que li nos ultimos dias!! Parabéns à autora e às meninas do TPM que o pulbicaram!!

    Bjinhus e continuo passeando por aqui...(ô vício dos infernos =/ )

    Dayane

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  3. Essa Samantha é foda! Extremamente cínica, hahahha. casacomigomenina... - Oi?
    Se vc é daqueles que leem os comentarios antes de ler o post, fique sabendo que está perdendo tempo! Le esse texto logo que é um dos melhores do blog!
    Mto bom Sam!
    E o vídeo.. idem.
    bjs meninas

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  4. texto muito muito bom!
    parabéns à autora e as meninas do blog, mandaram muito! não tem nem mais o que falar, da raiva só de pensar nessa censura troxa que eles fazem pra se esconder.....

    sem palavras!
    parabens de novo
    beijos

    @sabrinacoutinho

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  5. Acho que a autora do texto conseguiu explicar em palavras perfeitas o sentimento de muitas pessoas, de muitos eleitores. Estou me sentindo em um circo cheeeio de palhaços. E no final tenho MEDO de votar: não quero votar em uma pessoa para que a outra não ganhe, porque não quero que nenhum dos dois ganhe. Meu voto normalmente é nulo, mas que força tem esse nulo em um lugar que os votos são vendidos? Detesto ano de eleição porque é quando mais percebo o quanto sou insignificante na hora de decidir questões importantes para o meu país. Afinal, é tudo um jogo de interesses...deles, não nossos. Acho que o maior erro é que os políticos pensam que são os "donos" de um país, de um estado ou de uma cidade... E não percebem que na verdade nós somos o patrão e eles o empregado.
    Texto maravilhoso, parabéns!

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  6. Ao contrário da granded maioria, eu adoro eleição.
    Por que é (em tese) o momento em que podemos escolher um candidato(quem?) qu vai nos representar como cidadadãos, e bla bla bla.... pra depois termos o direto também de reclamarmos e até mesmo de fazer piads!
    mas, olha q lindo, ta dificil fazer qualquer um deses!!
    ou é o fato d que nçao temos candidatos descentes, ou uma lei babaca que um idiota resolveu fazer existir, por não ser maduro o bastante para aceitar críticas.

    vai entender esse povo!!

    mas vcs, eu entendo completamente! ;D

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